O ASPECTO TRANSCENDENTE DO TRABALHO: SUA DIMENSÃO ESPIRITUAL E MUNDANA

por Carlos Hollanda

A palavra “trabalho” nos lembra esforço físico, aplicação de concentração mental em fatores que determinam a sobrevivência, o conforto e o sentimento de que algo importante foi produzido para a prosperidade. Para certas pessoas, no entanto, o trabalho pode estar associado a um estado de aprisionamento, sacrifício ou submissão a autoridades que, julga-se, não estariam em condições de exercê-la.

O Dia do Trabalho ou do Trabalhador, suscita essa reflexão, quando nos damos conta de que estamos vivenciando mais um dos muitos processos revolucionários com relação à necessidade do Homem de lidar com a vida cotidiana, seus desafios e vicissitudes, sobretudo na era da informática, que, ao mesmo tempo, gera empregos para alguns e cria uma massa de desempregados não especializados que cresce e precisa ser remanejada a cada ano. A economia informal invade as ruas, locais turísticos, escolas e centros de recreação. Por causa disso, muita gente poderia pensar que se trata de uma “falta de dignidade”, o fato de estar subempregado ou vivendo pelos próprios meios, nem sempre bem recompensados e carentes de suporte em caso de mudanças radicais na economia nacional ou mundial.

Entendamos, todavia, a dimensão espiritual do trabalho, com seus atributos de correção (Tikun, em hebraico), sobre aquilo que somos, que produzimos e que viremos a produzir na vida. Toda atividade que visa a criação de algo útil para a vida, isto é, algo que a facilite e faça com que possamos enfrentar o dia-a-dia mais confiantes, pode ser denominada como trabalho. O fato de nos tornarmos mais confiantes deriva-se não somente pela satisfação no uso do que foi criado, mas, principalmente, pelo fato de que algo, a princípio, veio de nós, frutificou e resultou em benefício para mais de uma só pessoa. Isso nos torna importantes no esquema de vida de uma comunidade e, ainda mais, nos torna importantes perante nossa própria consciência, pois passamos a saber que um circuito foi estabelecido, no sentido de que precisamos do trabalho dos outros e os outros precisam do nosso. Uma verdadeira relação de dar e receber no nível da coletividade.

Astrologicamente falando, os arquétipos do elemento Terra são os que mais estão vinculados a essa atividade sagrada, que é o uso da vontade e da concentração para tornar tangível um intento. A isso chamamos trabalho. Signos de Terra – Touro, Virgem e Capricórnio, na ordem de apresentação zodiacal – são referentes, entre outros fatores, a: Touro – satisfação, estabilidade, conforto físico; Virgem – retificação, conhecimentos, técnicas; Capricórnio – realização, concentração, esforço.

Antes de tudo, o elemento Terra é ligado à condição de estar atuante fisicamente, isto é, no mundo fenomênico. Não se trata constantemente de uma consciência descrente de atributos não físicos, mas de alcançar o verdadeiro significado desse elemento (e do que realmente é o trabalho), usando as capacidades mentais, emocionais e espirituais como um todo e viabilizando aquilo que se originou como potencial no desejo humano de sentir-se feliz.

O dia 1º de Maio é referente ao ponto no ano em que o Sol, em sua trajetória, está aproximadamente a 10o do signo de Touro – um signo de Terra. A comemoração nesta data é escolhida na maioria dos países industrializados para celebrar a figura do trabalhador. A origem foi uma manifestação operária por melhores condições de trabalho, iniciada no dia 1º de maio de 1886, em Chicago, nos EUA. No dia 4 de maio daquele ano, vários trabalhadores são mortos em conflitos com a polícia. Esta prende oito anarquistas e os acusa pelos distúrbios. Quatro deles são enforcados, um suicida-se e três, posteriormente, são perdoados. Por isso, desde 1894, o Dia do Trabalho, nos EUA, é comemorado na primeira segunda-feira de setembro, o que é um fator significativo, em termos de simbolismo astrológico. De 23 de agosto até o dia 22 de setembro, aproximadamente, o arquétipo que impera, pela passagem do Sol, é Virgem, o mais contundente representante do trabalho e do aperfeiçoamento dos arquétipos zodiacais e também um signo de Terra.

Todavia, não se pode falar de trabalho e de classes trabalhadoras hoje em dia, sem que nos reportemos à Revolução Industrial, que aconteceu em meados do séc. XVIII, muito próximo da descoberta de Urano, por Herschel, em 13 de março de 1781. Apesar disso, as mudanças devem ter tido seu ponto culminante durante a passagem de Urano em Touro, de maio de 1767 até dezembro de 1774. Nunca, em toda a história da humanidade, o ser humano pôde dispor de tantas possibilidades de crescimento e de acúmulo de riquezas, como vem acontecendo desde que foram instaurados os métodos de produção industrial. As massas passaram, gradativamente, a se organizar em sindicatos e grupos que apoiavam (e apóiam) as classes trabalhadoras em suas respectivas áreas. O primeiro passo havia sido dado em direção à Era de Aquário, com a difusão dos bens gerados através do empenho de milhares de pessoas, que se tornaram bilhões, após as duas guerras mundiais, com o advento do trabalho feminino em larga escala.

Esse contato mais profundo com a necessidade de aplicação, de aprendizado, de aprimoramento pessoal, foi vivenciado por todo o planeta, sendo esses atributos, fatores característicos do símbolo de Virgem, que, no âmbito pessoal, leva nosso enfoque, com aguda concentração, para o processo individual de Tikun (correção de debilidades cármicas ou do lado negativo de um arquétipo). Esses últimos séculos, portanto, foram cruciais, no sentido de fazer perceber o valor de cada ser humano pelo que ele é e pelo que faz. Obviamente, ainda temos que nos defrontar com o aspecto mais primitivo de tudo isso que é a ganância e a exploração do homem pelo homem, que, a despeito do quanto evoluímos em termos de técnicas (sobretudo depois da conjunção de Urano e de Plutão em Virgem de 1962 a 1969), ainda persiste nos corações de muitos, que acreditam ter mais direitos a privilégios do que os outros ou que não conseguem se integrar como parcelas de um grupo, de uma “personalidade” muito maior do que um indivíduo julgado poderoso.

Mesmo assim, o trabalho pode ser encarado, antes de ser uma obrigação para nos mantermos vivos, como um fator de interiorização e crescimento espiritual. É através do trabalho mundano – que leva ao contato com o mundo prático – que obtemos um poderoso referencial do quanto ainda temos que nos aperfeiçoar para que possamos efetivamente executar uma tarefa de auxílio ao próximo. Os colegas de trabalho, mesmo aqueles cuja vibração é dissonante com a nossa, têm essa função de formadores de um campo de auto-observação muito importante. O trabalho feito em equipe proporciona uma visão tão clara a respeito de nossas imperfeições que nada temos a fazer senão tentar melhorar nossos pontos de vista, sermos mais flexíveis e menos egocêntricos. Entendemos que precisamos cooperar mais e que deve haver algum tipo de contato social capaz de nos tirar da casca estéril de uma visão fundamentada em percepções limitadas pelo ego. O trabalho em equipe fornece isso, pois trata-se de um compromisso, antes de ser apenas um encontro informal entre amigos e familiares. É nossa responsabilidade fazer com que as coisas funcionem.

É preciso aprender a aceitar a discordância de um método que achamos ser o ápice da qualidade. A relatividade é que o que se entende por qualidade e método variam de pessoa para pessoa, não se pode ser intolerante com variações de atitudes que visam o mesmo resultado.

Nos meios esotéricos, ouvimos muito falar da “Obra do Mundo” ou do “Grupo de Servidores Mundiais” do alvorecer da Era de Aquário, mas quem, afinal, são eles? Não são necessariamente – como podem pensar muitas pessoas que se julgam privilegiadas pelo conhecimento adquirido – estudantes de esoterismo, mas pessoas que realmente se importam com a humanidade e com qual efeito seu trabalho virá a ter sobre ela. São pessoas que têm compaixão, que aprendem com seus erros e que desejam profundamente compartilhar a Graça que recebem com seus irmãos. Estas pessoas também desejam, como qualquer outra, conforto, reputação e saúde – atributos do elemento Terra – mas são capazes de esforços grandiosos para acertar, para corrigir suas debilidades junto com todas as outras que também têm dificuldades.

E o que dizer do trabalho esotérico? O que se define assim e como trabalho não esotérico? Há uma certa diferença, é claro, entre servir à coletividade imediata através do esforço solicitado e através do serviço individual, visando a inserção de valores espirituais no mundo, dentro do ponto de vista do ser que se aperfeiçoa. O esoterista, a partir de sua natural tendência ao isolamento, é capaz de atingir um grau muito profundo de contato com a Luz Divina contida em si, mas sem o devido contato com a mentalidade de sua época, com as pessoas que o rodeiam e com o clamor de suas necessidades emocionais e fisiológicas, torna-se sem finalidade. O que fazer, então? Pôr-se num pedestal imaginário, julgando-se acima das debilidades dos outros é um erro grosseiro. É o mesmo que achar que, para dirigir um carro, basta ler o manual. O ser humano precisa constantemente de contato com a realidade mundana, em vista dela estar constantemente em mudança. Esse mundo ilusório em que vivemos reflete os atributos divinos, mas se nos mantivermos absortos ou excluídos de nossa sociedade, pensando que somente os exercícios de respiração e meditação vão resolver tudo, estaremos deixando de realizar a experiência que no Gênesis foi descrita como “lavrar a terra de que o homem fora tomado”, quando Adão provou da Árvore do Conhecimento. Portanto “lavrar a terra”, significa pôr a mão na massa, encarar o fato de que somos imperfeitos, mas poderemos receber dádivas de uma consciência perfeita através da prática da vida propriamente dita.

Isso vale também para todos nós que trabalhamos isoladamente com o intuito de passar o conhecimento das Leis dos Mundos Superiores. Se não nos desvincularmos, um pouco que seja, da mentalidade “ideal”, certamente entraremos em colapso, sendo vítimas dos mesmos problemas que tanto tentamos evitar que afetem aos nossos clientes, pois, desse modo, ficamos pouco conscientes de nosso processo individual de vida, a vida normal, de quem tem fome, sede, necessidade de sexo, de amor, de respeito e de importância. Vale a pena um contato maior com a vida “mundana”, com atividades como a do vendedor, a do operário, do motorista, do gerente, da dona-de-casa ou do empregado de uma empresa de informática.

Clique na imagem para acessar a página dos cursos.

Levanta-se então, uma questão inquietante para muitas pessoas que têm dificuldade em aceitar a autoridade alheia. É uma luta entre submissão e talento, entre o emprego e a livre iniciativa. Einstein é um exemplo típico. Com sua Lua na casa 6 – casa do elemento Terra – apesar de seu grande talento como físico imaginativo que era – que poderia ser desfrutado através de sua fama, ganhando muito em palestras e livros – passou boa parte de sua carreira prestando serviços como empregado do governo dos EUA, após se naturalizar americano durante o apogeu do nazismo. Nem por isso seu brilho foi diminuído, nem ele deixou de ser considerado pela própria genialidade – o que lhe garantiu conforto material. Einstein tinha uma espécie de vida paralela, no que diz respeito às suas atividades profissionais. Sempre fora dotado de uma mentalidade de professor, o que exercia entre períodos de pesquisas pagos pelo governo. Ele não vivia enclausurado, como seria de se esperar, em uma “abóbada” de cálculos e fórmulas. Ao contrário, atuou plenamente na defesa do controle internacional de armas nucleares. Além disso, com toda a fama, era considerado uma pessoa simpática pelos que com ele trabalhavam e conviviam intimamente.

Finalizando, a comemoração do Dia do Trabalho, assim como o trabalho em si, deve, na intimidade, nos levar à compreensão de nossa função ou missão de vida, seja ela como um rei ou como um serviçal. Cada atividade é um mar de possibilidades de crescimento e de contato com nossa ancestralidade divina, pelo simples fato de que temos a oportunidade de lapidar nossas arestas pelo contato com outras pessoas que tiveram outra formação e vivência.

Para o astrólogo, a consciência do trabalho quer dizer aplicar na prática o que aprendemos ao longo de tantos estudos. Isso sim é um contato verdadeiro com a divindade que subjaz em todos nós. É isso o que faz com que possamos dar orientações verdadeiras, baseadas no sentimento de compaixão e na certeza de que compreendemos o que passa aquela pessoa que nos procura. Parabéns para todos nós nessa comemoração do Dia do Trabalho!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s