Melancolia, Planetas, Signos e a Depressão Nossa de Cada Dia

Saturno, Netuno e Plutão: traços depressivos e ansiedade entre indivíduos e coletividade

por Carlos Hollanda

O número de pessoas deprimidas parece ter crescido nos últimos anos. Nos consultórios de psicanalistas, psicólogos, terapeutas holísticos e astrólogos esse aumento vem sendo sentido neste início de século XXI, ganhando um pico de intensidade entre meados de 2017 e meados de 2018. As chances, segundo a análise que se segue, é de isso ganhar proporções um pouco maiores nos próximos anos, sincronicamente aos atuais trânsitos de planetas lentos.  O que, em Astrologuês, poderia identificar essas tendências em termos de signos e planetas, ciclos pessoais e ciclos coletivos? Neste artigo vou apresentar minhas observações a respeito, com base na análise de mapas de clientes nos últimos 5 anos, sendo 15 deles atendidos com esses sintomas apenas no primeiro semestre de 2018.

Obviamente este texto não tem a pretensão de ser um tratado psicanalítico ou psicológico sobre os estados emocionais e suas possíveis soluções do ponto de vista terapêutico. O objetivo é lançar mão do que a Astrologia pode oferecer a partir de seus referenciais e da combinação dos mesmos para que sejam identificados os padrões que levam aos estados depressivos, além dos períodos em que tais predisposições costumam ser desencadeadas com maior frequência.

A título de comparação, é sabido que as crises de ansiedade normalmente identificadas em mapas astrológicos de pessoas com ênfases sobre Mercúrio, Urano e Lua, podem gerar o efeito reverso, com o tempo, tornando-se casos depressivos cuja intensidade pode variar de leves e provisórios a profundos e devastadores. Porém, os planetas cujos padrões são análogos ao comportamento depressivo e, de fato, até a condições orgânicas e neurológicas que levam a isso, são Saturno, Netuno e Plutão, em se tratando de Astrologia Moderna. Tradicionalmente (com os modelos mais antigos da Astrologia, com os 7 planetas tradicionais), os estados depressivos ou, utilizando a terminologia medieval, a “melancolia” (um excesso desse princípio), podia ser encontrado em:

  1. Ênfases em Saturno no mapa;
  2. Saturno em aspecto tenso (mal aspecto) ou conjunção com a Lua, com o Sol, com o Ascendente;
  3. Saturno em aspecto tenso com algum significador de saúde, como o regente da casa 6 ou da 8 (com seu componente psíquico e sua ligação com aquilo que nos destrói, a morte, a perda, luto etc).

Cronos e o Gênio da Arte. Adolf Friedrich Erdmann von Menzel, Berlim, 1882

De fato é Saturno o planeta cuja natureza é propriamente melancólica, daí sua presença constante em casos de maior ou menor grau de transtorno depressivo. Contudo, se levarmos em conta os planetas trans-saturninos, Netuno e Plutão também podem ser incluídos nos itens “a”, “b” e “c”, acima. Urano, ao contrário, vai para o ponto oposto, em picos de ansiedade e em hiperatividade.

No que se refere às casas astrológicas, os mapas mais propensos aos estados depressivos, com ênfase ou não nos três planetas melancólicos, têm posições fortes na 6, na 8 ou na 12 (ou em todas elas simultaneamente). Curioso perceber que, essas 3 casas são, desde cerca de dois mil anos atrás, chamadas de “casas desgraçadas”. Estas últimas ainda têm a casa 7 em seu conjunto, mas a mesma não converge com a mesma frequência para estados depressivos como as outras três suas “colegas”. Se resumirmos os motivos para tanto, digamos que na 6 se adoece e se subalterniza; na 8 morremos ou passamos por perdas; na 12 nos marginalizamos, somos presos, somos hospitalizados ou rejeitados ou somos vulneráveis. Apesar de tudo isso, na 6, por exemplo, podemos encontrar a cura pela rotina (ver este artigo aqui, que fala a respeito) e a 12 pode favorecer a contemplação necessária a pessoas como escritores (ver este outro aqui, que comenta a questão). Na 8 pode estar a chance de descobrir e purgar aquilo que você andava fazendo que atrapalhava os planos e você não se dava conta e ainda pode aumentar consideravelmente sua resiliência.

Ainda pensando na utilização medieval do termo, em graus menos intensos, a melancolia pode ser a chave para um pensamento profundo, para o recolhimento e elaboração das experiências da vida. Algo que um entusiasmo constante pode não proporcionar, devido ao fato de que a elaboração das experiências concretas junto às percepções das mesmas requer, entre outras condições, um certo isolamento ou recuo do burburinho da vida cotidiana, algo como um “desânimo pelo trivial” e uma busca por algo mais consistente do ponto de vista interior. O próprio estado que tenho que desenvolver para escrever textos mais longos e que requerem mais atenção, como este que você lê, é um mix de estado melancólico/reflexivo e o desejo de colocar para fora, de modo criativo, com lucidez, as impressões que me chegam de um longo e paciente trabalho de catalogação e deduções. Estar eufórico não me permitiria ponderar na mesma medida, é preciso que eu esteja a sós com meu pensamento para tanto. Há, claro, quem pense melhor na base do diálogo e das “faíscas” de uma boa provocação intelectual, que tenha tudo na ponta da língua, mas isso não é necessariamente refletir, deixar um dado sedimentar e, dali, desdobrá-lo com calma, sem conclusões precipitadas. Reflexões são feitas na base de dados coletados paulatina e pacientemente, sem certezas absolutas com informações esparsas. Partem de questões e situações que sensibilizam o indivíduo e que o fazem tentar responder de maneira penetrante e com discernimento. Por outro lado, a “melancolia intensa” ou depressão leva a um estado de desligamento do mundo, o desligamento de todo interesse, inclusive o de refletir sobre as condições vividas entre pontos e contrapontos. Na depressão costuma haver um só ponto: o que corrói a esperança. Nesse caso, a tendência é a autodestruição com o pensamento e sentimentos que tornam o viver insuportável e suas consequências são bastante danosas para a mente e o corpo.

Albrecht Dürer – “Melancolia I” (de 31 de dezembro 1513)

Ocorre que esses estados podem ocorrer das mais variadas maneiras. Os porquês de uma ou outra pessoa entrar em depressão podem ser muito pessoais e subjetivos, sendo que, para alguns que observam “de fora”, as razões para tanto seriam  “fúteis e infantis”, enquanto para quem vive a situação mais diretamente, um fato corriqueiro torna-se algo deveras catastrófico e difícil de se livrar. Pode-se disparar o estado que aqui chamarei de “supra-melancólico”, alundindo à característica saturnina exacerbada, a partir do choque com uma situação catastrófica concreta, como uma perda súbita de entes queridos, uma ruína nos negócios, perdas de status, fracassos sucessivos (ou imaginar que o enfrentamento dos obstáculos seriam fracassos e não processos), abandono, rompimentos de relacionamentos afetivos, falta de perspectivas para o futuro dentro de um grupo social etc. A lista pode crescer exponencialmente e aqui vou me limitar a indicar apenas esses poucos, mas não menos importantes, gatilhos. A propósito, o termo “depressão” é relativamente recente na História, tendo sido usado para designar o estado de desânimo ou perda de interesse no século XVII e sendo incorporado ao dicionário apenas no século XVIII, em 1750, pelo poeta, ensaísta e lexicógrafo inglês Samuel Johnson. Até então, essa condição era conhecida pelo termo que faz a ligação entre o planeta Saturno e a referida aflição. Vale lembrar que expoentes de diferentes épocas se referiam a ela como tal, e Albrecht Dürer a representou em sua célebre gravura “Melancolia”, que teria, entre suas possíveis motivações, a influência das leituras do autor sobre o tratado mágico-astrológico “De Occulta Philosophia”, de Agrippa.

Entre os signos astrológicos mais facilmente afetados por esse estado, estão Capricórnio, Peixes e Escorpião, precisamente os que são regidos, na mesma sequência, pelos três planetas de nosso título (modernamente falando). Cumpre observar que quando me refiro aqui a “signos mais afetados”, não quero dizer somente o que vulgarmente se passou a entender como alguém “desse ou daquele signo”, em alusão ao signo solar. Alguém pode ter seu Sol de nascimento (o famoso “o meu signo é…”) em qualquer um dos três e, ainda assim, não ser vítima desses estados críticos emocionais. Quando aqui falo dos “signos” falo como se fala tecnicamente, atentando para as ênfases encontradas no entrecruzamento dos dados do mapa. Um signo pode estar enfático quando o Sol, a Lua, o Ascendente, vários planetas se encontram lá ou quando alguns outros pontos, menos conhecidos do público leigo (como a Parte da Fortuna, por exemplo) estão ali localizados. Obviamente, encontrar-se-ão casos de pessoas com ênfases em qualquer outro signo passíveis de deprimir em graus variados, mas uma análise quantitativa revela que os signos regidos pelos planetas do título acima tendem a maior frequência. Assim, pessoas com pontos cruciais do mapa, como o Sol, a Lua ou o Ascendente em tais signos, assim como uma concentração (stellium) nos mesmos podem estar relativamente mais sujeitas, dependendo de época, pela configuração particular do mapa, histórico pessoal/familiar, sociedade, tempo histórico etc. Igualmente, as supracitadas pessoas cujas ênfases passam longe dos três signos elencados no início deste parágrafo, podem ter Saturno, Netuno ou Plutão (ou um deles, dois deles ou todos os três) formando aspectos (ângulos) tensos (difíceis) com fatores cruciais do mapa. É, de fato, o que ocorre na esmagadora maioria das vezes e não se restringe apenas às configurações astrológicas do nascimento. Os trânsitos desses planetas pelo zodíaco em algum momento poderão chegar nos aspectos que levam a essa tendência melancólica.

A situação econômica desses anos de crise no Brasil e no mundo não tem ajudado muito. Dificilmente é possível ter paz de espírito quando se tem uma expectativa de crises cada vez piores e quando as evidências político-sociais apontam para um quadro ainda mais complicado. Do mesmo modo, pessoas com grau de sensibilidade muito apurada, empáticas, auto-defensivas, antecipadoras de problemas, temerosas quanto a uma eventual ausência de amparo, excessivamente autocríticas, podem ser “campeãs” em variações de humor para um estado de medo e tristeza que descamba para a perda do ânimo para a vida. Todavia, como disse antes, apesar de as causas da depressão serem múltiplas e mais ou menos particulares de indivíduo para indivíduo, astrologicamente é possível identificar quando e como essas propensões ganham maior relevância, seja observando os trânsitos (também progressões ou retornos solares) sobre os mapas de nascimento, seja analisando-os como tendência coletiva.

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Enquanto este artigo é escrito Saturno e Plutão encontram-se em Capricórnio, o signo de domicílio de Saturno. Netuno encontra-se transitando em Peixes, seu domicílio pela concepção “moderna” da Astrologia. Plutão já transita em Capricórnio desde janeiro de 2008 e permanecerá nesse signo até setembro de 2024. Em junho de 2018 transita aos 20 graus da “cabra-peixe”. Saturno ingressou em Capricórnio em dezembro de 2017 e ali permanece até dezembro de 2020, dando, antes, uma passadinha por Aquário em alguns meses daquele ano, antes de se estabelecer neste último por outros cerca de 2 anos e meio. Em junho de 2018 encontra-se a 6 graus de Capricórnio. Netuno ingressou em Peixes em abril de 2011 e ali permanecerá até outubro de 2025. Em junho de 2018 vem passando em 16 graus desse signo.

Isso pode suscitar o questionamento: “se Saturno e Netuno estão em seus signos de maior poder, por que, então, representariam algo danoso?”. De fato, não é necessariamente uma manifestação danosa nem feliz o fato de um planeta passar por um dado signo, ainda que seja sobre um no qual o planeta possua dignidades ou debilidades. Um planeta bem posicionado por signo normalmente assim o está por ter sua natureza simbólica muito próxima das conotações oferecidas pelo signo. Isso faz com que a tal natureza se fortaleça bastante e, num mapa de nascimento, se torne mais facilmente consciente e expressiva. Mas também pode acentuar seus padrões, para algo agradável ou desagradável, dependendo dos aspectos que forma com outros fatores do mapa.

Em princípio, a passagem de Saturno por Capricórnio pode ser bem interessante, conforme demonstro num vídeo sobre o trânsito dos “Planetas Lentos em Signos de Terra”, na palestra de mesmo nome que você pode assistir integralmente clicando aqui e entender as muitas outras ramificações e complexidades de uma dessas posições celestes. Porém, seu efeito pode ser precisamente o de baixa auto-estima, melancolia, excesso de responsabilidade, interrupções ou lentidão na consecução de vários objetivos, cobranças constantes, e nem sempre suaves, vindas de autoridades ou de pessoas mais velhas, entre outros potenciais, compreendendo também a intensificada capacidade de levar a cabo com disciplina alguma tarefa penosa. Isso dependerá, claro, das repercussões que os trânsitos planetários terão em cada mapa individual, quer seja os aspectos que façam com outros planetas do mapa de nascimento (ou do mapa radical de uma instituição) ou a passagem pelos ângulos do mapa.

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Nos trânsitos atuais, quem são as pessoas mais afetadas? Aquelas que têm ênfases (ver delineação desse conceito no início deste artigo) em Câncer, o signo oposto a Capricórnio, por receberem, nos pontos enfáticos, a aspectação tensa de Plutão e Saturno ali. Igualmente Libra e Áries, pelas quadraturas, ângulos de 90 graus formados pelas posições planetárias, sendo esses ângulos também difíceis e desafiadores. Virgem é o signo que recebe oposições pelo trânsito de Netuno em Peixes, sendo, da mesma forma, afetado sob vários pontos de vista. Planetas situados em Touro e Virgem, no entanto, recebem bons aspectos dos planetas transitando em Capricórnio, portanto, excetuando-se outros ciclos pessoais que possam ser desafiadores num dado mapa, a tendência, nesses casos, é de estabilização, prestígio e respeitabilidade com segurança material. Os capricornianos de Sol, Lua, Ascendente ou vários planetas situados em Capricórnio, vivem esses trânsitos na pele diretamente. Se você possui alguma ênfase em seu mapa nos signos mencionados aqui neste parágrafo, procure observar se não vem passando, se já passou ou virá a passar pelo contato, por aspectos, desses fatores. Caso haja alguma predisposição a um comportamento melancólico no mapa radical (de nascimento, de inauguração), há uma sujeição maior a estados depressivos. Ao saber disso, é possível, com antecedência, tomar medidas que possam contornar e superar um eventual problema nessa área. Na presença dos sintomas, o ideal é solicitar atendimento com um psicoterapeuta ou psicanalista de sua preferência, de forma que ele possa avaliar o grau de intensidade, verificar se é um transtorno ou não e encaminhar para uma possível medicação ou tratamento. Isso pode evitar muito sofrimento desnecessário.

Do mesmo modo, a combinação desses planetas quando em contato uns com os outros pode acarretar os sintomas em pessoas que nasceram mais ou menos na mesma geração. Por exemplo, Saturno em trânsito fez conjunção com o Netuno de nascimento de pelo menos três gerações inteiras desde 2000 até aqui. A que nasceu com Netuno em Escorpião, em Sagitário e agora, em Capricórnio (indo ali, repito, até dezembro de 2020). Quanto aos possíveis efeitos desse aspecto, transcrevo um trecho do livro “Trânsitos Planetários”, de minha autoria (saiba mais sobre o livro clicando aqui), lembrando que isso pode variar de intensidade de pessoa para pessoa, de acordo com as configurações do mapa de nascimento. É preciso, de antemão, verificar em que grau se encontrava aquele Netuno daquela geração para saber em que época ocorreu o aspecto ou virá a ocorrer. Quem nasceu em fins dos anos 60, por exemplo, viveu a conjunção por volta de 2014 ou 2015. Quem nasceu em 1980 passou por ela entre 2016 e 2017. Quem nasceu em 1987 está passando por ela agora. Vejamos o trecho do livro e a relação do aspecto com estados depressivos ou situações com teor desesperançoso:

Saturno em trânsito em conjunção com Netuno radical

As fantasias, os sonhos e devaneios são duramente desafiados aqui. O pai, autoridades, professores e outras pessoas de idade superior podem tentar forçar o indivíduo a ver o mundo de maneira mais pragmática. Muitas de suas crenças são tidas como infantilidades ou como algo a que não se deve dar muita importância. Limites são impostos a esses sonhos e o indivíduo começa a crer que nada daquilo é de fato realizável. Ele enxerga com muito maior freqüência as dificuldades e os empecilhos do momento do que as ações necessárias para o alcance daqueles ideais. Por isso mesmo esta fase é permeada por uma certa tendência à depressão e evasão do mundo, uma reclusão pela crença de que de nada adiantarão os maiores esforços se aquilo que se visualiza não pode ser atingido. O indivíduo tende a decepcionar-se com pessoas e sistemas que regulam a vida em sociedade e prefere manter-se em seu mundo de sonhos sem, contudo, dar os passos necessários para reverter sua situação.

Por outro lado, as próprias circunstâncias dão tal evidência: pode-se sonhar com um trabalho no campo das artes visuais, por exemplo, e tudo o que obtém é a função de auxiliar de projetistas numa empresa de engenharia. É o princípio de realidade prática de Saturno agindo sobre o ideal netuniano. Acontece que ao invés de aproveitar os ganhos relativos que pode obter numa função distante do que deseja e empenhar-se no aprendizado e conhecimento de pessoas da área almejada, o indivíduo tende a manter-se principalmente em lamentação. Ou isso ou numa triste conformidade, aceitando, como se estivesse em auto-sacrifício, “a realidade como ela é”. Ele abdica de sua felicidade tentando ser “adulto” ou maduro, adequando-se às expectativas alheias e a visões bem menos criativas que a dele. (Carlos Hollanda – “Trânsitos Planetários – Astrologia e Previsões – vol. 1, 2017, p. 178)

Aqui vale a observação de que o capítulo a respeito do aspecto ainda trata das possibilidades de desenvolvimento que o mesmo possui, não apenas dos pontos elencados e transcritos aqui.

Se você está na faixa etária de quem tem Netuno em Capricórnio pode vir a sentir alguns desses traços durante uma fase que pode durar cerca de 6 meses ou mais, se Saturno em trânsito entrar em movimento retrógrado enquanto realiza a conjunção. Fique atento, é possível contornar os potenciais difíceis e extrair dessa passagem de Saturno o melhor que ele tem: consolidar e dar consistência, na medida da logística existente, aos sonhos e devaneios, produzindo meios para executá-los com sobriedade.

Para finalizar, vale dizer que Netuno passando por Peixes tanto amplia consideravelmente a criatividade de quem se vê sensibilizado (nos pontos do mapa radical) por seu trânsito tanto quanto a vulnerabilidade, a piedade, a perda de referenciais, um eventual excesso de romantismo, comportamento de vítima (em parte devido à vulnerabilidade ampliada) e dissolução (ou desilusão) de fantasias irrealizáveis. Muitos podem recorrer a fugas na forma de vícios ou dependências. Outros são auxiliados por alguma forma terapêutica que ou venha a levar em conta a química farmacêutica ou alguma maneira alternativa de tratar. Normalmente, nessas fases, é a química mesmo quem mais acaba resolvendo, embora nem sempre. Plutão em Capricórnio vai levando muitas pessoas com essa ênfase nesse signo, em Câncer, Libra e Áries, passarem por situações bastante desafiadoras e emocionalmente críticas. Alguns experimentam alguma forma de luto, que tanto pode ser aquele de fato, com pessoas próximas que dão adeus (na menor parte dos casos e apenas naqueles em que já se esperava isso), términos de relacionamentos, perdas de vínculos empregatícios, cirurgias corretivas ou as vitais, falências ou ruptura de parcerias em negócios. As variações também são grandes e as especificidades só podem ser indicadas de caso a caso na leitura do mapa individual.

Carta natal de Lars von Trier, obtida no astrodatabank.com. Infelizmente não se dispõe do horário de nascimento.

Uma curiosidade a discutir futuramente: no filme dinamarquês “Melancolia”, de Lars von Trier, lançado em 2011, o planeta que dá título à obra (e cujo tom azul se assemelha ao da Terra ou mesmo ao de Netuno) irá se chocar com a Terra e exterminá-la, e a toda a vida nela. Trier, anteriormente fizera “Anticristo”, em meio a forte processo depressivo, e “Melancolia” marca a saída do diretor desse processo. É um filme niilista, em que Trier faz questão de mostrar sua percepção quanto a não haver alívio nem segurança possíveis na família, no amor, nas instituições, na cultura, na arte, no dinheiro, na infância, mostrando, ainda, o quanto estamos sós no imenso universo e, ainda assim, não vamos durar muito. Apesar disso, o filme é muito bom e merece ser analisado com cuidado em todas as suas nuances que, sob diversos prismas, mantém uma convergência a todas as questões que são relevantes no processo depressivo, mostrando, ainda, de modo saturnino, o que seria a futilidade de tantas instituições e das organizações sociais. O pessimismo de Trier, contudo, é a característica mais clara de uma combinação dos três planetas de nosso título em suas expressões mais complexas. No mapa ao lado (clique na imagem para ampliar), num mapa sem horário, Saturno e Plutão encontram-se envolvidos numa das mais tensas configurações astrológicas, uma “quadratura T”, envolvendo a ambos, a Mercúrio e a Júpiter. Netuno ainda forma um quincunce com Mercúrio. Sua Lua, um dos pontos enfáticos do mapa, encontra-se em nada menos que em Capricórnio. Uma eventual obtenção do horário de nascimento do diretor talvez revele uma posição ainda mais preponderante de Netuno e dos demais planetas que motivam este texto.

Termino aqui chamando a atenção para o fato de que este texto não aborda todas as nuances, coisa que seria mais apropriada a uma publicação mais robusta como um livro dedicado ao assunto. Espero, no entanto, que o conteúdo presente seja satisfatório ao menos para esclarecer uma parcela das dúvidas a respeito dessas condições que todo ser humano é passível de viver.

Carlos Hollanda
22 de junho de 2018, Sol em Câncer, oposto a Saturno, Lua em Escorpião.

 

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