Ophiucco, Serpentário ou Esculápio – Não há 13o. signo – Entenda:

Pela enésima vez ocorre uma divulgação massiva do chamado 13o. signo, o Esculápio, isto é, a constelação de Ophiucco, algo que não tem peso como signo zodiacal, mas que se insiste em colocar como a “última descoberta”, a “grande novidade”, “os astrólogos sempre estiveram errados, vejam”! Não apenas eu, mas dezenas de outros astrólogos já explicaram isso com detalhes inúmeras vezes e fazemos isso há décadas, mas, ok, aqui vai mais uma, de um outro jeito.

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John Flamsteed, Ophiuchus & Serpens, Londres, 1728

1- Claudio Ptolomeu, que viveu no século II da era comum, e cujas obras, como o Tetrabiblos e o Almagesto, nortearam a astronomia até Copérnico, obviamente conhecia essa constelação, tanto que a incluiu, e às estrelas que a formam, em suas obras. Entretanto ele mantém a divisão hierática do céu zodiacal, mantendo Ophiuco junto às constelações não-zodiacais, até porque de fato apesar da proximidade e de uma parcela dessa constelação chegar a tocar a eclítica, grande parte dela está fora do “caminho do sol”. Outras constelações zodiacais parecem não estar totalmente “dentro” da eclítica, mas nenhuma delas com tantas estrelas fora do caminho. Mas se ainda querem usar as estrelas de Esculápio como algo significativo, nada impede: durante toda a Idade Média, varando o Renascimento e até aqui, astrólogos se utilizaram largamente de constelações não-zodiacais para estabelecer nexos entre situações vividas e o céu. Este é o estudo do simbolismo das Estrelas Fixas e suas aplicações em mapas de nascimento ou em técnicas como Retorno Solar e Astrologia Horária.

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Livro “Trânsitos Planetários”, de Carlos Hollanda. À venda nas livrarias especializadas em Astrologia ou pelo correio. Solicite ao autor.

2- O zodíaco utilizado pelos astrólogos ocidentais é o zodíaco tropical, o que é concebido segundo as estações do ano em conformidade com o hemisfério norte, onde esse simbolismo se originou. O zodíaco tropical difere grandemente do zodíaco sideral, o das constelações, sendo que um e outro só coincidiram em parte cerca de dois mil anos antes da era comum e mesmo assim, como disse, não totalmente: o tamanho das constelações e dos signos nunca foram os mesmos, nunca houve uma equiparação total entre uma coisa e outra desde as primeiras concepções do zodíaco astrológico, excetuando-se os nomes das constelações que entre outros atributos, tinham algumas estrelas que serviam de referência para a mudança das estações e seu decorrer.

3- O zodíaco tropical é construído matemática e arbitrariamente de forma a ajustar-se a calendários como os caldaicos, sumerianos e egípcios, com seus 360 dias e 5 dias que miticamente se atribuíam ao influxo dos deuses no mundo criado (veja bibliografia ao final). Esses 360 dias são divididos por 12 em função de alguns princípios fundamentais, entre eles:

a) o ingresso de uma estação do ano, seu ponto culminante e sua transição para a estação seguinte, o que caracteriza uma divisão da estação em três períodos. São 4 estações, cada uma possuindo 3 períodos de um mês, resultando em 12 períodos de tempo divididos igualmente. A origem dessa divisão equânime obedece a uma concepção de universo e meio ambiente que parte dos sumerianos e de outros povos a eles próximos no tempo, cujas sociedades desenvolveram-se até atingir as chamadas “cidades-estado-hieráticas”. Estas sociedades não apenas herdaram do paleo e do neolítico muitas práticas de sobrevivência e convivência, como sistematizaram e deram complexidade às concepções do sagrado. Assim, o universo é concebido por esses povos como uma espécie de manifestação da ordem divina sobre o caos, um elemento de inteligibilidade que permite, isomorficamente (por analogia), organizar a vida concreta abaixo do céu.

b) o próprio processo de formação desse zodíaco das estações do ano, que entre os sumérios obedece ao sistema sexagesimal por eles desenvolvido para calcular a passagem do tempo e, de certa forma, comungar com os deuses naquele período das primeiras produções escritas em cuneiforme. O dia de 24 horas é um múltiplo de 6 (6 X 4), enquanto a hora, com 60 minutos e tudo o que dali decorre pertence a essa concepção. A divisão por 12 do zodíaco provém dali, com seis eixos interdependentes marcados pelos signos e suas polaridades. Os gregos sistematizaram ainda mais o sistema de divisão do céu cujos princípios herdaram daquelas primeiras visões. Nota-se claramente uma contribuição do pensamento pitagórico na geometria e na divisão exata de 30 graus para cada signo, encaixando-os numa perfeita circunferência, que no final é uma forma de representação do infinito e de muitas considerações acerca de uma consciência divina.

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Formação Completa, com certificação.

4- A inclusão de um novo signo não possui pertinência para esse modelo. Ele não mudará porque a astronomia moderna assim deseja. Essa interferência de alguns astrônomos sobre o modelo astrológico não faz sentido e é uma pena, pois ambos os saberes são diferentes e prestam-se a finalidades diversas, embora tenha havido por muitos séculos uma mescla de ambos. Retirar a idéia de divisão sexagesimal, ou de múltiplos de 6, do zodíaco simbólico das estações (repetindo que não é o sideral) faria perder todo o sentido na relação do ser humano e seu ambiente com o universo percebido, visual e sensível ou psicológico. Não seria nenhum espanto se essas reportagens visassem apenas minar uma suposta crença dos usuários de serviços astrológicos ou gerar alguma desconfiança a mais em futuros usuários. O que, novamente, é uma pena. Novamente não se trata de uma postura de quem quer realmente esclarecer ou conhecer cientificamente algo. A relação que os usuários e os praticantes possuem com a Astrologia não se baseia em crença, na maior parte dos casos de quem procura consultoria astrológica, mas sim em constatação. O que é dito durante uma leitura é constatado em parte durante ela e em parte ao longo do período em que se projetam as técnicas de previsão para uma faixa de tempo. Sendo assim, tentar determinar que haveria um suposto 13o. signo em nada altera isso, pois não irá demolir crença alguma, posto que não é disso que se trata. Não quando falamos de quem se dispõe a procurar um bom trabalho de leitura.

5- Muitas vezes tais tentativas de intervenção ou de “revelação”, soam como se um degustador de queijos quisesse demolir crenças sobre a consistência que a estrutura metálica de uma ponte teria, usando seu paladar, ao lamber um pilar de aço. As categorias utilizadas para determinar essa suposta alteração do zodíaco não se encaixam e não levam em conta uma bela quantidade de variáveis nem a especificidade do conhecimento que desejam desqualificar.

Seguem, abaixo, duas referências bibliográficas interessantes, sugeridas para conhecer mais sobre o que disse no item 3. É de fácil aquisição. Não é tudo, pode ser questionado, mas é um bom começo e está em língua portuguesa.

CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus v. 2 e 3. São Paulo: Palas Athena, 2010.

STUCKRAD, Kocku von. História da astrologia: da Antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Globo, 2007

Atenciosamente,

Carlos Hollanda

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Astrologia, Aprendizado, Livros e Receitas de Bolo – Um Questionamento

torta zodiacalPerguntas pertinentes merecem boas reflexões e maiores detalhes como resposta. Nem sempre consigo tempo para fazer isso, mas aproveitei uma que a Maria Tereza Lopes Dantas me fez em particular para escrever este artigo. Pode ser que com ele mais gente possa ter novos insights e serem esclarecidas de alguma maneira. Esta não é uma resposta definitiva e inquestionável. Só parto do que observo por muito tempo dando aula e escrevendo e, até aqui, parece ser a melhor e mais adequada. O que mais achei bacana na questão abaixo foi o fato de que ela não foi uma imposição, não veio subestimando nem superestimando nada. É uma curiosidade que me pareceu genuína e manifesta de maneira gentil, apesar de poder expressar a insatisfação de alguns com um post que fiz há alguns dias em minha página (fanpage) no Facebook. Nele disse que “Astrologia não é receita de bolo” e que se seguíssemos somente o “decoreba” não haveria interpretação decente. Segue, abaixo, a pergunta, na íntegra, bem parecida com o que faria Gêmeos, por sinal, ou alguém com um belo, curioso e contestador Mercúrio, mas algo expressivo de elemento Fogo junto:

“Carlos, ainda não tenho seu livro mas vou lhe confessar que me intriga como fazer esse tipo de livro sobre trânsitos sem ser receita. Como???!!!!!”

Ótima pergunta, Maria Tereza! Como havia te pedido em particular para torná-la pública, com a resposta, aqui vão os detalhes. Antes de tudo, obrigado.

Na verdade, naquele post, eu me referia ao aprendizado em cursos, não a livros. Vou tentar te responder explicando isso e também diretamente o que perguntou, ok?

É muito comum ocorrer de alguns alunos terem pressa para interpretar mapas astrológicos e desejarem resultados com poucos dados. Desse modo, uma grande parte se pauta pela repetição de padrões que são trabalhados pedagogicamente para funcionarem como peças em um grande quebra-cabeças. Este talvez só possa ser devidamente montado observando três principais atitudes:

METROPOLIS_REDA) Conhecer bem cada uma das “peças” (leia-se signos, planetas, casas, aspectos etc) que o intérprete, em sua escolha de variáveis, irá usar (alguns usam ou não Lilith, outros só os sete planetas clássicos, outros estrelas fixas, outros asteróides e assim por diante, como coleção de variáveis a ler);

B) Aprender a integrá-los como frases ou parágrafos em uma linguagem, de modo coerente, tornando cada um daqueles “fragmentos”, partes de um todo. Seguir uma metodologia ou montar ele mesmo uma própria.

C) Entender que uma posição de planeta em casa, signo e casa ou configuração planeta + aspecto + signo + casa + outros planetas, apesar de possuir um modo padrão de expressão (a essência desses fatores), terá manifestações diferenciadas para cada pessoa, instituição ou situação (vide mapas horários e eletivos). Isso dependerá do contexto em que tais fatores e posicionamentos no mapa assumem aquelas características. Contexto sociocultural, histórico (o que ocorre para uma pessoa numa geração, mesmo que idêntico para outra de outra geração, manifestar-se-á com outras roupagens nesta última) e até familiar. A estrutura de um fator no mapa é sempre a mesma, mas as roupagens variam de contexto a contexto. Levar isso em conta pode fazer significativa diferença entre uma leitura “mais ou menos”, onde o interrogante se identifica e se ajusta, e uma reveladora, que pode nortear mais adequadamente quem procura leituras astrológicas.

Na imagem acima, um dos cartazes do filme “Metropolis”, de Fritz Lang, como analogia para o que escrevo aqui. Por um lado, as descrições cabais que “robotizam” modelos comportamentais e interpretações. Por outro, cada “peça” de nossa estrutura simbólica é parte de um todo que só funciona quando concatenado.

Daí o post lá do Face: há quem queira somente ouvir em aulas descrições-chave de comportamento, mas sem precisar fazer um esforço de adequação entre o que se decora e o que se manifesta. Um bom exemplo são as aulas de mitologia, que consistem em narrar em parte os mitos, relacioná-los a signos e planetas, a situações vividas ou possíveis e dar ao futuro intérprete uma maneira de encarar situações de consulta mais complexas com uma ferramenta a mais. Não bastasse isso, aprender mitologia e simbolismo desses fatores, com uma boa gama de correspondências, pode fazer a diferença entre decorar um padrão e ENTENDER o padrão. Conhecer raízes profundas da formação daquelo modus operandi aumenta as chances de fazer algo a respeito, de reconhecer sintomas, de ver que as coisas ali fazem sentido e que nós ajudamos a produzir realidades. Sendo bastante honesto, não consigo entender quando alguém se entendia com aulas teóricas, em que a raiz do pensamento, de expressões que vivemos é explorada e comparada com situações reais em potencial. A teoria é a ferramenta que nos ajuda a pensar, a não sermos bonecos guiados por procedimentos fechados. A teoria pode ser modificada, é móvel, apesar de precisar de bons argumentos para isso. Melhorei muito minha prática de desenho, por exemplo, simplesmente por estudar com afinco teorias de Gestalt e de Composição, em Artes. Os resultados atuais são visivelmente melhores, mas, usando uma analogia, há quem deseje apenas aprender a apertar parafusos e não a criar modos de fixação mais eficazes, se é que me entende. Em outras palavras, se sei que Saturno no Ascendente pode coincidir com lentidão e rabugice, para quê saber se ele é o símbolo da gravidade, do tempo, do peso, das estruturas, que “devora” (ou limita) seus filhos, que realiza penitência, que por causa da necessidade de estruturação abdica muitas vezes do ideal (Urano, cujos bagos foram “ceifados” por Crono). A diferença no exemplo acima é precisamente entender como as realidades podem se moldar de diferentes maneiras e quais as raízes daquelas potencialidades. Com isso pode-se reinterpretar o fator, fazer a interpretação evoluir, se desenvolver, tornar-se ainda mais satisfatória e intimamente coerente. Dá até para fazer livros que ultrapassam os modelitos tradicionais, feitos segundo o contexto de uma época, atualizá-los, reutilizá-los de modo criativo e eficiente.

FormacaoPresencial-Tijuca-cartaz-okOs livros e manuais são extremamente valiosos, sem sombra de dúvida. Fazem parte do aprendizado do astrólogo. Sem leitura constante e comparação dos dados escritos com as realidades que se apresentam, o intérprete de símbolos torna-se aprisionado em modelos prontos e aparentemente imutáveis. Entretanto, e já iniciando a resposta à sua pergunta, um livro de Astrologia que explica como se dá determinada configuração celeste não tem condições de flexibilizar do mesmo modo que uma situação real de consulta nem tampouco uma situação de orientação. Aquelas interpretações dadas nas “receitas de bolo” servem como referência, são trampolins ou bases sobre as quais podemos nos apoiar para realizar a interpretação propriamente dita. Esse é o grande valor de livros com descrições, sejam elas as de planetas em signos e casas, sejam as de trânsitos de planetas (mas veja o que escrevo um contraponto lá no final deste artigo). Muitas vezes o que está escrito caberá de modo praticamente literal ao que uma pessoa que apresente tais configurações vive. Porém, há, em igual proporção, pessoas que não se identificam de imediato com o que se descreve naquelas posições ou “fragmentos” do mapa. É aí que entra o entrecruzamento de dados, o comparativismo (entre o padrão descrito no livro e a realidade vivida), o bom senso, o ato de estabelecer a mescla de significados que as inter-relações de planetas entre si com as casas, signos etc permitem e são praticamente irrepetíveis. Se assemelham muito em suas estruturas, claro! Duas pessoas que tenham quadraturas T envolvendo um Saturno na casa 4 podem ter dificuldades expressivas no relacionamento com as figuras familiares, sobretudo o pai, pode trazer antigos medos de escassez vindos de antepassados em várias gerações e coisas do tipo. Só que para uma delas, aquele pai pode ser terrível, rigoroso ao extremo, e ausente, enquanto para a outra ele pode ter um histórico de fragilidades, doenças, perdas e similares, sem que o indivíduo tenha uma mágoa daquele pai. É isso que “receitas de bolo” astrológicas, em especial aquelas bem resumidas, as cabais, as sem margem de adaptação de caso para caso, não conseguem abordar. Elas podem, sim, dar o já citado ponto de apoio para o raciocínio, alguma informação estrutural de onde podemos partir para fazer uma leitura bem amarrada conceitualmente e que permita ao aluno e ao cliente estabelecerem o link necessário entre o que se lê e o que se vive. Esse é o ponto em que se liga o “interruptor” da capacidade individual de mexer em seus próprios padrões repetitivos ou de pelo menos, no caso de situações coletivas ou fortuitas, desviar-se o quanto possível do pior lado, procurando o melhor.

Não há, creio eu, como fazer astrologia sem usar referenciais como esses. Então, não é possível fazer um livro de trânsitos com descrições dos potenciais de um período marcado por um aspecto de um planeta sem recorrer a um “modelito”, como as famosas “receitas” (novamente, vide o contraponto ao final). Há diferenças, como as descrições absolutas e sem tonalidades, tantas vezes diferentes do que vivemos, e as que procurei dar no livro dos Trânsitos Planetários, com detalhes e aberturas a acréscimos. Num livro como esse, aliás, cabe às partes introdutórias deixar essa pista de que vários aspectos ocorrem simultaneamente e podem alterar a dinâmica do que é descrito num ou noutro. De fato, fiz isso até nas próprias descrições, ao dizer, em algumas delas, que “se outros aspectos/trânsitos indicarem algo diferente…” (ou escrevi algo bem parecido com o sentido desta frase). Assim, este livro, assim como qualquer outro bom trabalho publicado, pretende servir de referência para o livre pensar, para dar um “veículo”. Os incrementos e usos do veículo quem faz é o leitor e intérprete.

Por fim, o contraponto que prometi acima duas vezes: como fazer um livro sobre trânsitos ou progressões sem receitas de bolo? Até dá para fazer sim, só não sei se quem está começando a aprender vai usufruir ao máximo. Como? Eu faria uma série de artigos com mapas de exemplo, mostrando configurações e mais configurações realizadas por movimentos planetários sobre aqueles mapas. Mostraria coisas como “aqui neste caso, com Saturno no Meio do Céu, em quadratura com Netuno no Ascendente e com Júpiter na casa 7, o cônjuge pode viajar bastante, enquanto você tem problemas de saúde ligados à mãe e avó. Pode também ver as situações de trabalho bastante empacadas e sem perspectivas durante a fase, temendo pelo pior, mesmo diante de acenos de bons resultados para meses à frente”. Isso já seria bem distante das fórmulas fechadas, creio, e dá para fazer assim por centenas e centenas de páginas.

Grande abraço!