O planeta regente do ano e as Horas Planetárias – considerações e desconsiderações

sun-astrology-800pxEstamos chegando ao equinócio de Áries, que ocorre sempre por volta dos dias 20 ou 21 de março (em 2016 ocorre dia 20/03, 01:29:54, nas coordenadas do Rio de Janeiro). O ingresso do Sol nesse signo marca o início do que chamamos “ano astrológico”, que no hemisfério norte é a primavera e no sul o outono. Astrologicamente falando, é ali que as coisas se iniciam, não no primeiro dia de janeiro. Esse ingresso do Sol no primeiro signo também representa uma espécie de “semente”, isto é, de latência para todo o ano que se seguirá, de março a março, indicando, pelas configurações celestes da região para onde se faz o cálculo de um mapa, como transcorrerão as coisas com instituições, governantes, economia, movimentos populacionais e até setores da sociedade. Faz parte de um conjunto bem complexo de saberes para análises em Astrologia Mundial. Até aqui, parece haver somente uma ou outra discordância entre os especialistas. A celeuma começa quando se atribui ao ano a regência de um único planeta. O tal “regente do ano”.

NOTA: ver, ao final, o link para o artigo do astrólogo João Medeiros, com uma lúcida consideração sobre as diferenças de sistemas adotados para classificar o ano astrológico.

Há muita especulação sobre esses “regentes”, algo difundido massivamente pelas publicações populares de astrologia ou de algum assunto esotérico, que se por um lado despertam uma boa curiosidade em muitos, por outro, costumam simplificar demasiadamente aquilo que disponibilizam. Com isso, quando ocorre tal massificação e simplificação daqueles conteúdos, frequentemente vem junto a ausência de senso crítico de uns (achando que aquele conteúdo tão inconsistente é “tudo”), o excesso dele para outros (que pela falta de consistência ou de explicações mais aprofundadas, o consideram uma idiotice) e a completa indiferença de muitos, vendo naquilo apenas conteúdo para preencher páginas excedentes (o famoso “encher linguiça”). Aquele conteúdo, porém, é bem mais interessante e profundo, com possibilidades de uso sob diversas circunstâncias, mas ainda assim, é preciso entendê-lo devidamente, quais suas possíveis funções e o que logicamente não faz o menor sentido afirmar a respeito dele.

Antes que os apressadinhos que se crêem divinamente iluminados queiram pular os importantes detalhes da explicação que se segue, aí vai: teoricamente, o planeta que rege 2016 é o Sol.

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Aos céticos de plantão, calma! Chamar o Sol ou a Lua de planeta faz parte de uma tradição, do jargão astrológico da Antiguidade. Para os antigos filósofos gregos, entre eles Aristóteles, que usavam essa denominação, os corpos celestes que se moviam visivelmente no céu eram “errantes”, os astros que “vagueiam” ou que “viajam”, em oposição aos que aparentemente seriam fixos, as estrelas, que, observadas a olho nu, pareciam manter a mesma posição indefinidamente. O termo “aster planetes” em grego significa “astros errantes”. Daí a denominação para qualquer um deles que se deslocasse nesse contexto, inclusive nossa estrela e nosso satélite (que pretensão chamá-los de nossos! Mas para facilitar…).

Voltando ao regente do ano, o Sol é o que estaria no comando em 2016, mas poucos se perguntam de onde parte essa consideração e qual o fundamento. A resposta esbarra em enormes complicações, como por exemplo o fato de que não se sabe exatamente qual é a origem desse sistema, exceto que entre os registros mais antigos estão os caldaicos, e no que eles se basearam para encontrar um ponto de início. Quero dizer: ninguém sabe qual seria o planeta regente do primeiro ano em que isso começou a ser contado. De fato, não se sabe nem mesmo qual seria esse primeiro ano. Como? Continue acompanhando para saber, mas já adianto que é certamente especulativo, já que nosso calendário (gregoriano) é diferente do que eram os calendários medievais (juliano – desde a Roma dos césares) e antigos (como o sumeriano e o egípcio, de 360 dias e mais 5 de “influxo divino”). Isso por si só já teria criado uma divergência numa possível contagem das regências dos anos, a menos que ao serem substituídos os calendários, que o foram com finalidades políticas, sobretudo, se tenham feito ajustes e adaptações para que se mantivesse tal regência planetária na ordem, o que é bastante improvável.

Count_of_St_GermainHá quem indique que essa prática tenha-se iniciado com o famoso Conde de Saint Germain (séc. XVI/XVII), que teria definido o “domínio” dos planetas a cada ano. Acontece que o sistema e a seqüência adotada, como dizem, pelo conde, é totalmente calcada no referido sistema caldaico e que pode ser verificado nos diagramas das camadas de céu aristotélico-ptolomaico e também na seqüência descendente do diagrama da Árvore da Vida, entre os cabalistas.

 

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céu no modelo aristotélico-ptolomaico

Entre os livros medievais que asseveram esse modelo está o Sepher Yetzirah (Livro da Criação ou Livro da Formação – Yetzirah em hebraico é “Formação”). Este último exibe claramente em seu texto a questão da seqüência criadora (não esquecer que apesar de hebraico, se trata também de um texto metafísico com raízes helenistas entre outras que contribuíram com aquele pensamento – vide o 2o. capítulo desta tese) exatamente na ordem que se segue: Saturno-Júpiter-Marte-Sol-Vênus-Mercúrio-Lua e, em seguida, o ciclo retorna a Saturno, na sequência acima.

 

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Raziel

Algumas lendas e tradições colocam isso como tendo sido iniciado com o patriarca hebreu Abraão, enquanto outras apontam para o anjo Raziel, que transmitiu esse saber para Adão, após a expulsão do paraíso, com o intuito de que a humanidade pudesse retornar de sua queda. De qualquer modo, o Sepher Yetzirah foi compilado aos poucos durante a Idade Média, o que provavelmente ocorreu entre os séculos VIII e XIII, quando conhecimentos matemáticos e místicos de judeus e árabes proliferavam pela Europa. Esse, aliás, foi um período de grande florescimento da astrologia, sobretudo os séculos XII e XIII. De qualquer forma isso não muda o fato de que não se sabe com exatidão qual o ano de início da classificação planetária anual, que, no caso, seria o de Saturno. Como assim?

Treeoflife

Três diferentes versões da Árvore da Vida – Kabbalah

Esse sistema de classificação de planetas regentes do ano obedece ao mesmo sistema que define os dias da semana e os chamados “horários planetários”. De acordo com o texto do referido Sepher Yetzirah, a divisão das horas de um dia tem início, segundo o relato bíblico, “no quarto dia de Criação”, que na linguagem que usamos hoje equivaleria à noite de terça-feira e à quarta-feira. Quanto a isso, o rabino Arieh Kaplan diz o seguinte:

A influência dos planetas no sistema do Sepher Yetzirah não depende de suas posições no céu , mas da hora do dia . Isto é discutido em inúmeras fontes talmúdicas e cabalísticas. [tornando a recordar que mesmo as fontes talmúdicas receberam muitas influências do helenismo]

Em ordem de distância da Terra, os planetas são : Saturno, Júpiter, Marte , Sol, Vênus, Mercúrio , Lua. Deles, Saturno é o mais distante da Terra e a Lua é o mais próximo.

De acordo com a Bíblia, as estrelas e planetas foram feitos no Quarto Dia da criação (Gênesis 1:14-19). contando do domingo, o quarto dia era quarta-feira.

Na contagem bíblica, no entanto, a noite sempre precede o dia . A Torah, então, diz: ” Era noite e era manhã”. A noite sempre precede a manhã.

Os planetas foram colocados em sua posições na noite do quarto dia , que é a [ ou equivale para nós hoje à] noite de terça-feira. Eles foram colocados um de cada vez, a cada hora , de acordo com suas distâncias da terra [e também com a duração de seus movimentos na eclíptica]. Assim , na primeira hora (18h. de terça-feira ), Saturno foi colocado em sua posição . Na segunda hora (19h. de terça-feira ), Júpiter foi posicionado. A ordem da criação dos sete planetas foi, então, a seguinte:

primeira hora: 18h. – Saturno
segunda hora: 19h. – Júpiter
terceira hora: 20.h – Marte
quarta hora: 21h. – Sol
quinta hora: 22h. – Vênus
sexta hora: 23h. – Mercúrio
sétima hora 00h. – Lua

(KAPLAN, Arieh. Sepher Yetzirah – the book of creation in theory and pratice. York Beach. Samuel Weiser: 1990. pp. 180-181).

planetaryhourstarAssim, seguindo a ordem indicada acima até as 6 horas da manhã, teremos a quarta-feira como um dia regido por Mercúrio. Veja a seguir a continuação da sequência mostrada acima:

oitava hora 01h – Saturno
nona hora 02h – Júpiter
décima hora 03h – Marte
décima primeira hora – 04h – Sol
décima segunda hora – 05h – Vênus
Primeira hora do dia (com o despontar do Sol no horizonte) – 06h – Mercúrio

 

astro-horariatijucaPor que até às 6 da manhã? Porque para o modelo de pensamento antigo, bastante diverso do nosso, com relógios e divisões racionais do tempo, o dia só começava de fato quando o Sol despontava ou estava para despontar no horizonte. Isso normalmente ocorre por volta das 6 h. Antes disso é tudo considerado noite, já que o Sol não está mais visível (das 18h. até as 6h., o período entre o ocaso e o nascer do Sol). A primeira hora do dia define o regente do dia. Se no nascer do Sol no quarto dia da Criação temos a hora de Mercúrio, é ele quem rege a quarta-feira (Mercredi – francês, Miércoles – espanhol; em inglês, Wednesday, o dia de Woden ou Odin, equivale: é também um deus da escrita, pelas runas). Explicado isso, basta, então, aplicar a seqüência na ordem indicada para perceber que a quinta-feira é o dia de Júpiter, a sexta, o de Vênus, o sábado, o de Saturno, o domingo o do Sol, a segunda o da Lua e a terça o de Marte.

Nota “virginiana”: na citação de Kaplan não consta o fato de que a organização hierárquica dos planetas obedece, na verdade, a ordem temporal dos mesmos, mensurável por observação. Sendo a Lua o fator mais rápido, ela fica mais abaixo na escala, enquanto Saturno, o mais lento, se aproxima do “não-tempo”, representado pelas estrelas fixas e outras camadas do céu imaginário, tidas como acima da temporalidade e, portanto, ligadas aos mundos divinos, das idéias arquetípico ou qualquer outra denominação que represente a superação do tempo e da corrupção provocada por ele na matéria. Fica aqui, novamente, a dica do já mencionado capítulo de tese que fala a respeito, é só clicar.

NOVO-cartaz-italia-astroContudo, como podemos saber, a partir do mito criador, em que momento essa criação ocorreu se esse momento é mítico? Desse modo, não podemos saber com toda certeza qual o ano regido por um determinado planeta. Isso tem mais de especulação, como disse, do que de uma contagem confiável. O mais estranho de tudo é que o sistema das horas planetárias, com práticas que consideram o dia e a hora para determinadas práticas e ações, é extremamente preciso e funcional. É possível até mesmo perceber a mudança de tom de assuntos ou de circunstâncias, por exemplo, na medida em que mudam as horas planetárias. Em poucas horas, com uma condução adequada da atenção, é perfeitamente possível constatar isso. Aliás, até mesmo sem criar expectativas quanto ao que poderia ocorrer durante a próxima hora, quando nos damos conta, as situações convergem para o sentido que a hora reserva. Experimente.

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Entretanto, quando se trata do ano astrológico ou do planeta regente do ano, fica muito difícil perceber a diferença, se é que ela existe, sem mergulharmos em especulações. O pior erro daquele que crê sem questionamento é querer tanto enxergar alguma coisa que acaba reconstruindo o que de fato ocorre diante de seu nariz com suas fantasias. É preferível uma dúvida saudável do que o estabelecimento de uma certeza sem a convergência de diferentes pontos de vista ou diferentes experiências com o mesmo assunto. Outro ponto importante a levantar: mesmo que essa contagem estivesse absolutamente certa, asseverando que é mesmo o ano regido por aquele planeta, seria incrivelmente simplista e ingênuo acreditar que apenas um único fator, em termos astrológicos, definisse as características gerais de um ano para todas as pessoas da Terra. Vale muito mais a pena calcular o mapa astrológico para o ingresso do Sol no signo de Áries, que de fato representa um potencial para os próximos 12 meses em nível coletivo, do que ter a ilusão de que o “planeta regente do ano” irá interferir em alguma coisa para alguém.

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Uma especulação que pode ser testada, mas que pode durar anos a fio para que possa se transformar em constatação, e não dou certeza disso, é verificar como o suposto regente de um ano se encontra no mapa do ingresso do Sol em Áries, daquele ano. Como disse, é a partir dali que o ano astrológico começa, o que inclui o ano “regido por alguma coisa”. A hipótese seria a de que aquele planeta regente, pelas razões listadas nos parágrafos acima, sob os aspectos que recebe de outros planetas, a casa astrológica em que caísse, no cálculo, assim como os trânsitos que sofresse, teria preponderância e daria de fato a tônica daquele ano. É algo a se testar. Eu prefiro verificar o mapa do ingresso e lê-lo como manda o figurino, vendo os dispositores, as ênfases etc., etc. Veja aí o que você prefere.

 

Adendo de 27/12/2016: segue o link para um artigo com o qual tenho várias concordâncias e que acrescenta uma explicação sobre o porque de haverem dois sistemas para as regências anuais: Para o segundo sistema, baseado nos trabalhos de Sepharial, ainda no século XIX, o regente do ano seria Saturno. Aí vai: O Ano de 2017 – Visão Astrológica – por João Medeiros

Abraços,
Carlos Hollanda

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6 comentários em “O planeta regente do ano e as Horas Planetárias – considerações e desconsiderações

  1. Obrigado, Carlos! Assim como Barbault e Morin não são difundidos nos EUA e na UK, essa abordagem de ano novo e regente, não se tornou popular nos EUA e causa estranheza a quem vê de fora. Não digo que não funcione ou não seja válido [eu comemorei esse Réveillons no passado, durante minha formação na Regulus) mas os computadores e planetas lentos geracionais nos empurraram prá longe. Será que dá para conciliar os dois? Atrás de pesquisa séria baseadas em fatos reais e concretos [pessoal e politico] creio que sim. abraços. Obrigado.

    • Também creio que sim, mas aí é que está: creio, não sei. Teria que haver uma pesquisa grande, densa, séria, por longo tempo para ver se o ano planetário funciona ou é só uma forma de chamar a atenção das mídias e superficialidades.

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