Pressuposições, símbolos e certezas absolutas: para refletir

por Carlos Hollanda

harrison ford

Harrison Ford, no filme “O Fugitivo”. Acusado injustamente, foge para provar inocência. A Justiça pode ser cega, muitas vezes sectária e não-imparcial.

Uma das coisas mais desagradáveis deste mundo e que costumam causar mais problemas vindos de mal entendidos é a pressuposição sem confirmação de intenções, atos e pensamentos nocivos de terceiros, como se eles tivessem informado claramente que o fizeram e ao “intérprete” cabe somente admoestar o sujeito ou acusá-lo. Aquele que pressupõe que você está pensando de determinada forma, que fez algo que não pode provar que você fez, além disso, está cometendo de uma só vez dois atos de extrema grosseria, violência simbólica e injustiça:

a) o está condenando, sem provas, por algo que ele imagina que você fez. Está imaginando com tanta veemência, que crê ser a mais pura verdade. Costuma, inclusive, dizer que vai “dizer umas verdades”, para alguém, quando essa “verdade” é tão somente uma pressuposição baseada em… delírio! Simplesmente se tirou aquilo de um desejo de fazer justiça ou de revelar as coisas “tais como são”, mas provavelmente só são assim na cabeça do delirante. Ele tende a ver-se como justo, bondoso, certo de que os outros precisam lhe ouvir e dificilmente enxerga o próprio rabo, com a terrível brutalidade que está cometendo e que faz sucessivamente. Uma brutalidade que não precisa provir dos punhos ou das armas. As palavras e as atitudes são tão terríveis quanto. Isso se chama, como disse acima, “violência simbólica”. É violência, como aquela do assédio moral, como a dos preconceitos de toda ordem, que impedem que as pessoas que se encaixam no rótulo possam atingir determinados fins sociais.

b) cria, com afirmações diretas e sem qualquer consideração pelos meandros de uma situação, mal entendidos com transtornos que podem chegar a ser graves para aquele que foi o alvo daquela pressuposição de má conduta. Isso é irritante ad infinitum, e pode gerar contendas tão prolongadas quanto durar a disposição das partes para engendrar acusações ou defesas. Não raro o delirante afirma tudo isso no grito, mesmo que não imagine que o esteja fazendo. Falar alto, num tom maior do que o dos demais É ISSO! É querer tomar para si a “verdade” e as atenções, é querer sufocar o argumento do outro em seu falatório megafônico, é vomitar delírios incessantemente para ver se o outro se cala e aquela loucura toda se torna verdade aos ouvidos e mentes dos demais. Uma estupidez sem tamanho, tratada como sinceridade ou como um mero engano passageiro. Com tudo isso, o acusador delirante pode talvez acreditar que você irá se submeter à “verdade” e se tornar “humilde”, irá se arrastar em pedido de perdão ou irá mudar a conduta. Ele crê firmemente que fez uma boa, digo, ótima, ação, ao tentar achatar aquele “sujeitinho” “vil”, “mesquinho”, que não fez aquilo que acha certo, dentro de seus próprios e delirantes parâmetros. E não há quem consiga demovê-lo dessa certeza absoluta. Ele tem “provas imaginárias” que crê serem muito “sólidas”.

Pare para pensar! De onde você tirou essa afirmação ou essa pressuposição? Há evidências disso? Tem certeza de que o que você tem é uma evidência ou é você acreditando veementemente que é? Será que não é só para poder dar vazão ao seu desconforto com aquela pessoa que irá julgar e ao que ela faz ou fez, mesmo sem ser nada contra você ou o resto do mundo? Não seria sua carência da atenção do acusado? Não seria carência da atenção de todos, pelo seu ego gigante? O acusador delirante não consegue enxergar. Ele lerá isso e apontará o dedo para alguém e o acusará baseado em pressuposições sem prova.

Não pensem que isso ocorre apenas em tribunais ou em filmes de baixa categoria. É no cotidiano, e existem milhares, milhões de pessoas, que o fazem com uma frequência assustadora. Todos nós, em algum momento, podemos cometer algo assim, porém, há quem repita indefinida e velozmente esse padrão e é dessas criaturas que estou falando. Vale para boas e más condutas imaginadas. Pressupondo que o sujeito é “sensacional” o tempo todo, que irá “conduzir” a alguma salvação ou bem estar, que “solucionará” aqueles problemas com os quais se digladia por muito tempo com facilidade é também dar margem a desapontamentos. Mas na verdade, quem está desapontando a si mesmo é a própria pessoa que cria esses personagens e os incorpora em alguém. Quando ocorre o “desapontamento”, aponta o dedo, acusa, tem certezas absolutas, sem contar que é ele mesmo que provocou o problema. O “acusado”, não é nem uma coisa nem outra. No máximo, um tiquinho de cada simultaneamente, mas nada no preto e no branco como querem esses delirantes literais.

Igualmente, não pensem que por eu ser astrólogo eu estou escrevendo isso para me referir a Júpiter em Virgem, signo que tem forte relação descritiva e com a padronização para facilitação de procedimentos. Se é para pensar em um símbolo do sistema astrológico ele seria Júpiter, sim ele mesmo, o “Grande Benéfico”, senhor do otimismo e da esperança. A mesma “certeza” que leva à esperança salvadora em situações difíceis e a distribuir bondade ao redor é aquela que pode degringolar em injustiças tremendas e mágoas irreparáveis que o delirante crê serem frescuras, pois foi “só uma coisinha”. Qualquer Júpiter em qualquer posição em que ele se encontre potente, qualquer mapa em que ele assuma destaque de algum modo. Tensionado por aspectos difíceis obviamente fica um pouco pior, mas é característica dos exageros jupiterianos esses tipos de certezas absolutas sem provas e as acusações diretas, por vezes escandalosas, por vezes diante de outros que nos são caros, por vezes entre poucas pessoas, mas sempre pressupondo que o acusado fez ou pensa algo que ele desaprova sem que tenha qualquer confirmação. Ele não pergunta, ele não é suave, ele não dá oportunidade de defesa, ele não relativiza, ele afirma e pronto. O “Grande Benéfico” tem lá suas mazelas e esta é uma das piores. E ainda podemos acrescentar um Mercúrio forte? Me parece que sim, na medida em que as pessoas muito mercuriais tendem a também pressupor finais de frases que não chegaram nem à metade ou que seus interlocutores não entendem as coisas direito. Saturno? Também sim. Pressuposições de que as outras pessoas precisam ser controladas, ou por não terem persistência, ou comprometimento, ou por serem falhas no geral (cometendo uma falha corrigível em 10 anos de atos competentes, por exemplo). Vênus? Claro, sedução, todos estão “jogando verde”, charme, para obter satisfação sexual ou conforto de algum modo. Lua? A Lua só pressupõe que quer aconchego e envolvimento. Sol? Ora, “eu sou a criatura mais importante da galáxia!!!”. Marte? “Filho da puta!! Está querendo me passar a frente na saída do sinal fechado!!!”. Marte, Saturno e Plutão vêem filhos da puta em quase todo lugar. Deixemos, por hora, os planetas trans-saturninos. Mas que Júpiter repete esse padrão com bem mais frequência, isso repete. Não é pressuposição, você pode constatar ao longo dos anos, basta observar com calma. E não se preocupem, jupiterianos em geral: conheço muitos que não têm essa frequência. Só fiquem sabendo que numa escala de zero a dez, dois não têm. Talvez um. E você é um agraciado pelos deuses pelo bom senso e autopercepção, se não o faz com exagero.

Fica aqui a dica, meio desesperançosa de um lado, esperançosa, de outro. Quando alguém lhe perguntar algo, não pressuponha tão depressa que ele tem segundas, terceiras, várias intenções por trás, e não responda como se já soubesse quais são essas intenções. Você está sendo ofensivo, violento, burro, e não está demonstrando qualquer sabedoria, qualquer percepção acima da média. Não, você não é especial nem mais esperto. Você pode desconfiar, pode pensar que há algo errado, pode até construir situações em sua cabeça, mas antes de sair metralhando com palavras duras os outros, tente descobrir se está mesmo correto. Quando o fizer, em vez de atacar ou de colocar as coisas de modo depreciativo, com comparações com o que acha que deveria ser o “bom”, suavize. Não se atinge a correção e a “coisa boa” sendo veemente o tempo todo. Até mesmo quando se está 100% com a razão. Violência, meu caro, só em auto-defesa e olhe lá!

E antes que alguém pressuponha que escrevi isso porque estou com ódio de alguém, esqueça: a única coisa que incomoda de fato é a pressuposição desmedida descrita em todo o texto. Se você o faz, vale a pena reconsiderar. Eu não sei se é você quem faz, não escrevi pensando numa determinada pessoa, mas conheço centenas que o fazem. Elas merecem estas palavras, mas não precisam nem devem ser expostas. Alguns de meus textos receberam mensagens em retorno como: “você está atacado!”, “nossa! Você deve ter brigado com alguém!”, “quem foi que te irritou assim, meu caro?” ou “eita, ariano arretado!!! Tá brabo com alguém, né?”. Nenhuma das alternativas, meus queridos! O fato de eu ter o Sol em Áries não me obriga a ser um justiceiro brigão 24 horas por dia todos os dias do ano. Isso também é pressuposição baseada em estereótipos. Das levinhas, mas é. Acontece que o texto acima parte de observações que vieram a vida toda. Acho que vale a pena as pessoas ficarem um pouco mais conscientes desse dado. E se os acusadores delirantes se tocarem, coisa da qual duvido um pouco, puxa! Como ficarei feliz! Mas tenho a pressuposição, espero que não cega, de quem tiver lido vai conseguir perceber um pouquinho melhor essa atitude nos demais e exercer um pouco mais de ponderação. Isso (quem sabe?) pode fazer a diferença para melhor em situações injustas.

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4 comentários em “Pressuposições, símbolos e certezas absolutas: para refletir

  1. Oi, Carlos, você observou um fato, falta de Educação com E maiúsculo, cultura e sensibilidade, que apenas a Arte, a Ciência, A Filosofia e a Mística podem nos oferecer. O pior disso é existir dentro de casa, na infância e na família [criando traumas quase irreversíveis] . No ambiente de trabalho. Acho que os desafios entre Mercúrio e Plutão ou Saturno também ajudem a simbolizar esse mal. Abraços. Obrigado.

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