Expressões do mito em situações cotidianas

A figura da montanha, da longa escadaria, do templo no alto de uma longa caminhada vertical é um símbolo bastante antigo de ascensão aos céus. Seu ato físico de peregrinação com grande esforço e despojamento acima do burburinho do cotidiano corresponde a um processo psíquico de atingir, passo a passo, um estado de ser diferente do anterior, um “galgar níveis de céu” e constelar entre os que já superaram a condição humana. Os grandes sacrifícios nas subidas de montanhas ou escadarias como as do Santuário de Nossa Senhora da Penha, muitas vezes realizadas de joelhos, são formas de penitência que representam um desprezo pela materialidade e o desejo de purificação.

No Ocidente temos aí uma herança neoplatônica da valorização do imaterial ante a vida física, nessa figura simbólica, mas o mito ascensional é muito mais antigo e arraigado, além de possuir significados mais profundos e consistentes. Pode ser na cultura brasileira ou várias outras: a essência é deixar o mundano. Consomem-se etapas eliminando o apego à materialidade através do desprezo pelo corpo, da rarefação dos contatos humanos e do encontro consigo mesmo, pois não há “outro” com quem lidar ao final da peregrinação. O problema está na desconexão entre o ato simbólico e o símbolo em si. Aparentemente, aquele fiel que no Brasil e noutros países de religiosidade semelhante busca é uma graça, um “milagre” diretamente proporcional ao tamanho do esforço e sacrifício. Algo como uma moeda de troca que paga com sofrimento a um “imponderável” que pode não responder na medida das expectativas de resultado. Qual o motivo? Podem ser muitos, mas galgar os degraus no ato mítico, no entanto, pouco tinha a ver com um comércio com o divino, não no sentido de troca de valores. Nesse sentido, de nada adiantaria destroçar os joelhos, ao se subir com eles uma longa escadaria, ou permanecer dias sem se alimentar sem haver, sincronicamente, uma modificação na percepção.

No exemplo da escada/montanha/templo, cada “etapa de céu” percorrida equivaleria a um acréscimo ou despertar da percepção do penitente. Um despertar que moveria o olhar para si mesmo, seus atos e seus padrões de realidade. Como disse, a modificação perceptiva promovida pelo ato mítico não é a busca pela Graça como comércio, mas o entendimento de que parcelas de responsabilidade se possui nas situações em que nos colocamos. O “ato milagroso”, nesse caso, é a promoção de consciência que faz corresponder ação física e pensamento simbólico num só conjunto. Incluem-se nessa categoria os atos físicos de peregrinação/ascensão e as orações (igualmente atos físicos) em templos religiosos, feitas com entendimento e intenção de atingir o estado perceptivo invocado na recitação/ação. Na Kabbalah, essa espécie de mescla entre os atos de fé e de intenção consciente são conhecidos como Kavannah. Para ilustrar a questão, segue, uma bela foto da escadaria do Santuário de Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal, local em que estive e do qual guardo com carinho boas lembranças. Qualquer semelhança com o barroco brasileiro de Congonhas ou Ouro Preto, em Minas Gerais NÃO é mera coincidência.

 
Santuário de Bom Jesus do Monte – Braga – Portugal – Foto de Carlos Hollanda – outubro/2011

Carlos Hollanda – entre estudos e textos esboçados para um dos capítulos de sua tese de doutorado (que obviamente possui referências e exemplos) sobre Promethea, de Alan Moore e sua viagem pela Árvore da Vida.

 

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