Conversando com o daimone

A prática de solicitar uma graça ao santinho do altar caseiro é muito mais antiga do que o cristianismo. A prática de virá-lo de costas, de cabeça para baixo, dar-lhe broncas e coisas parecidas quando a situação almejada não é atingida também. Nesses procedimentos está o sincretismo do sincretismo, na herança neoplatônica da teurgia, a exemplo de Iamblicus, ou fatores ainda mais antigos no pensamento mágico que deposita nos símbolos representados materialmente não apenas uma representação da divindade invocada, mas a própria divindade em uma de suas possíveis, múltiplas e sincrônicas manifestações mundanas. As figuras dos santos do cristianismo são profundamente sincréticas nesse sentido. Ora como antigas divindades-heróis-semideusescorrespondentes ao simbolismo planetário do céu aristotélico-ptolomaico, mas travestidas com linguagem visual cristã (vide São Jorge, mesclando Ogum, Marte, Sigfried e Apolo, matando o réptil), ora como intermediários entre céu e terra, deuses e homens, arquétipos e experiências concretas. Iamblicus, bem como outros neoplatônicos, chamava esses intermediários de “daimones”. Os daimones cumpriam, na visão daquele filósofo, esse papel de levar preces, interceder com potências superiores imateriais, atuar na fisicalidade como interferência, na medida em que fossem invocados e em que o suplicante se conectasse com o princípio simbólico que expressavam. A conexão poderia dar-se pela prece, pela meditação, pela crença numa outorga concedida por um sacerdote, por sonhos ou até mesmo por experiências-limite, como as de quase-morte.

Philemon, uma espécie de entidade-guia para Carl Gustav Jung. A imagem consta no “Livro Vermelho”, do autor.

Entre as práticas mágicas da Antiguidade uma frequente era a coação da entidade a fazer aquilo que o mago desejava. Salomão, o rei hebreu dominava o que seriam daimones de diversas naturezas com suas invocações, talismãs, sigilum e outras operações entre mantra (cânticos, verbalizações) e yantra (desenhos, escritas, codificações visuais e/ou gestuais). Um pouco disso encontra-se em sua “Clavícula”, bastante difundida atualmente entre pesquisadores do assunto. Rituais de invocação e de banimento, assim como “ameaças” ao daimone invocado eram comuns na Idade Média e entre sábios pós-renascimento, como John Dee e Cornelius Agrippa. Há, nesse caso, um diálogo entre as heranças helenísticas e neoplatônicas com os modelos cristianizados em que qualquer prática fora das impostas pelo dogma religioso seria perniciosa, havendo, portanto, a necessidade de inserir as representações e verbalizações cristãs como “meio de proteção” e prevenção caso alguma coisa viesse a dar errado.

 

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Curso de Magia Astrológica com talismãs e outros recursos, em 12 e 13/03/2016, em São Paulo. Clique na imagem e confira.

O processo permanece nos dias de hoje em situações como as descritas no início do primeiro parágrafo, mas também nas referências a quaisquer potências simbólicas assemelhadas ao Mercúrio astrológico, o mensageiro com asas nos pés e em seu chapéu. Não tão diferente do “angelus” ou “ággelos” (respectivamente, em latim e em grego), “mensageiro, em grego, que, como em narrativas de tantas culturas tradicionais, surge na forma de aves, seres alados, deuses transformados em pássaros vigorosos que transportam (ou sequestram, abduzem) mortais suplicantes às dimensões divinas, passando, não raro, por etapas/camadas de experiência probatória até chegar ao topo de árvores ou montanhas celestiais. Em várias culturas xamânicas, sejam elas norte-americanas, da Oceania ou da Ásia, a figura de um grande pássaro que guia a alma pelos galhos de uma enorme árvore, a fim de promover uma espécie de “resgate da alma”, costuma ser descrita como um reencontro com antepassados, com uma parcela ferida ou “sequestrada” da própria alma que no plano físico adoecera, ou ainda, com uma divindade que instrui o suplicante (postulante, iniciado, meditador, escolhido etc.). Para tanto, é comum exigir-se que o sujeito atenue ou elimine seus esforços de descrição/entendimento intelectual, que “pare de pensar” e se aperceba do vazio. Parar de pensar é tarefa difícil para a índole mercurial, mas justamente essa enorme capacidade e talento para a racionalização seria a armadilha que impede o postulante a tal encontro com o símbolo de experimentá-lo plenamente. Hermes, como Loki, afinal, é também um deus da trapaça e os daimones, como os djins (apesar das diferenças de contexto e de certas características), nem sempre são confiáveis, vide literatura de fantasia. Há que se ter Hermes como guia, mas é preciso foco no objetivo para que o próprio guia não disperse o caminhante.

Dica de leitura e referência:

LUCK, Georg. Arcana Mundi: Magic and the Occult in the Greek and Roman Worlds, A Collection of Ancient TextsBaltimore: Johns Hopkins University Press, 2006.

 

 

Cordialmente,

Carlos Hollanda

 

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