Nota

Não existe experiência exterior, só existe o que ocorre interiormente? Sinceramente, enxergo a coisa por outro ângulo. Vou dar início a esta breve reflexão incluindo um pouquinho de “astrologuês”, mas logo traduzindo para o português: estou aproveitando a Lua transitando pelo fim de Peixes, formando trígono com Mercúrio no final do Escorpião, oposição com Vênus, no final de Virgem e os trígonos formados por Sol-Saturno em Escorpião e Netuno-Quíron em Peixes. Essas configurações e aspectos no céu suscitam esse diálogo entre interno e externo, subjetivo e objetivo, emoções e intelecto, afetos e distanciamento. No final, a coisa é muito simples: a Lua em trígono com Mercúrio costuma ser concomitante a situações que estimulam o desejo de comunicar emoções e de refletir profundamente, o que é facilitado pela escrita ou fala intimista, não pela conversa corrida de quem prefere verdades prontas. O diálogo aqui é favorecido por algo que altere o estado de consciência, como a cafeína, que me enche os neurônios neste momento, o álcool ou um estado afetivo que retire as pessoas de sua rotina habitual (Lua-Peixes-oposição-Vênus-Virgem).

 

De algum modo, nesta semana em que esses aspectos foram-se formando no céu, recordei sutilezas que sempre me foram de grande importância. É por essas e outras que há 20 anos venho apreciando, estudando e praticando preceitos cabalísticos, mesmo que não com a frequência que gostaria, mas, sim, o fazendo. Meditando e agindo sobre os símbolos cabalísticos tive o prazer de compreender e apreender muitas coisas com as quais eu certamente não saberia lidar sem isso. Não que outros sistemas não possam fazer o mesmo, claro que fazem, cada qual a seu modo, mas para mim pessoalmente o que mais se encaixou mesmo foi a Kabbalah, e olha que já experimentei muitos sistemas diferentes. Gosto de pensar que a Kabbalah, a despeito de seus muitos atributos, é uma “ação-meditação” ou vice-versa, em cuja construção simbólica tudo se integra. Em outras palavras, não existiria um “fora” ou um “dentro”, mas uma outra coisa, uma síntese de ambos num só todo em que matéria e energia, objetividade e subjetividade se afetam simultânea e mutuamente. Colocando de um modo mais pedagógico: de que adianta, por exemplo, saber que há um vazamento na cozinha e meditar para que o vazamento pare? O vazamento obviamente não vai parar até que se tome uma providência material, uma ação concreta traduzida no conserto da peça defeituosa. Assim também com outras instâncias da própria vida em si: as experiências objetivas que temos podem ser encaradas como catalizadoras de processos subjetivos, inconscientes ou seja lá qual for o nome/conceito que queiramos adotar para designar a coisa. Entretanto, essas expressões objetivas estão totalmente atreladas ao que se movimenta internamente, do mesmo modo que esse movimento tem um alto grau de dependência das respostas que possamos ter/dar “aqui fora”. No exemplo do vazamento da cozinha, quem disse que não se está meditando ou desenvolvendo um aspecto da subjetividade ao tomar providências concretas? O ato material em si é correspondente ao um movimento interno e este corresponde de volta à ação. O que faz diferença é estabelecer a percepção do elo indissociável que há entre uma coisa e outra. Não há desenvolvimento subjetivo sem uma experiência correspondente na objetividade. Há uma interdependência de ambos na construção das percepções e no desenvolvimento da autoconsciência, da consciência de si no coletivo e das apreensões que temos do mundo que nos cerca.

Certa vez, quando eu andava inspirado acima da média e tudo me soava mais bonito, como se houvesse (e há) uma ordem implícita em meio ao caos cotidiano, uma pessoa muito querida me falou que tudo de bonito que eu enxergava ao meu redor estava dentro de mim. De fato, isso não foi exatamente uma novidade, embora ouvir tais palavras proferidas carinhosamente pelos lábios de quem estimamos o que seria lugar-comum torna-se um presente dos deuses: nada como saber que outras pessoas estão sintonizadas com nossas percepções. Aprendemos isso quando damos passos num caminho que tomamos como transcendente. É no encontro consigo mesmo, e após um período de batalha interna com as próprias contradições (e são tantas!) que surgem momentos nos quais conseguimos perceber uma certa harmonia nos acontecimentos e nos cenários que nos acompanham. Tudo realmente fica belo, ainda que comporte o horrível em sua estrutura. Contudo, esse encontro, essa percepção, não raro provisória e marcante, só se dá pela mediação entre a percepção dos atributos internos e as experiências objetivas. Um não ocorre sem o outro. Não há como dizer quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha, sendo mais provável que, nessa analogia, a galinha e o ovo sejam uma só coisa que se manifesta em timings diferentes. Encontrar objetiva e concretamente um aspecto da felicidade e deixá-lo escapar, não lutar para vivê-lo plenamente, mesmo que de maneira efêmera, é negar a si mesmo a formação do circuito extraordinário e mágico que faz a vida ser uma experiência grandiosa, uma grande e significativa narrativa. Ninguém depende de um outro para ser feliz, a felicidade, como dizem algumas tradições orientais, está dentro de cada um. Todavia, se um outro chega em sua vida concomitantemente à emersão do afeto, um processo subjetivo que corresponde àquela chegada, seria válido, por acaso, tranquilizar-se ao ponto de permitir a distância mútua até que a vida se encarregue de fazê-lo por si só? Não seria esse mesmo processo a própria vida se manifestando dentro de você, clamando por uma ação concreta que corresponda ao movimento interno? No caso de uma resposta positiva, que é o que me parece, a “meditação” aqui é a ação visando a promoção do contato. “Não era pra ser” é uma expressão que pode aliviar sofrimento e liberar-nos de comportamentos obsessivos, quanto a algo desejado. Tantas e tantas vezes, porém não passa de desculpa esfarrapada para nossa falta de coragem de encarar a vida e seus desafios, de encarar o fato de que mesmo não dependendo de pessoas ou de coisas para gerar felicidade, a presença e a existência desses fatores são fundamentais na realização de quem somos, o que somos e o que podemos ser. Nesses casos, a melhor meditação é viver esse encontro externo, que corresponde àquilo que se vem movimentando na alma.

Abraços fraternais,

Carlos Hollanda

26/10/2012, às 11:45, Rio de Janeiro.

Lua em Peixes em trígono com Mercúrio – reflexões

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2 comentários em “Lua em Peixes em trígono com Mercúrio – reflexões

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